Reunindo apenas os elementos comuns das histórias e omitindo aspectos distintos e peculiares dessas narrativas, tem-se a seguinte lenda:
“Numa época em que só havia índios e animais, bem antes da chegada de povos de outros continentes, um curumim, indiozinho da tribo dos Paiaguás, perguntou ao pai:
- Pai, por que existe tanta espuma no salto do Rio Piracicaba?
Pacientemente, o pai explicou:
- A espuma existe para relembrar uma guerra em que todos os peixes deste rio se envolveram. Por muito tempo, os peixes viveram em harmonia, mas um dia, ninguém sabe o porquê, um conflito mortal ocorreu. Dois exércitos gigantes de peixes começaram a disputar o domínio do rio. De um lado, o exército comandado pelo Dourado, peixe guerreiro, e, de outro, a liderança era do Curimba, nome reduzido de Curimbatá, este de cor prateada.
Cada um desses chefes tinha, ao seu comando, doze traíras, que eram responsáveis pelas ações de guerra e cada traíra chefiava muitos mandis, piavas e lambaris. Os peixes pequenos se uniram a um ou a outro exército, por se identificar e gostar das diferentes tonalidades, dourada ou prateada. Até mesmo os índios começaram a torcer por um ou outro dos bandos. Cada grupo, de peixes e de índios, inventou uma música em que se cantava a supremacia sobre o inimigo e se exaltava a força de seus guerreiros. Criaram danças e símbolos próprios. Em cada ritual, alguma coisa nova era mostrada para unir os guerreiros, fossem eles peixes ou índios. Seguiam um triste princípio: “Os indivíduos só se unem, quando têm um inimigo comum”. A discórdia instalou-se até nas aldeias. O resultado foi trágico: guerra total. Muitas foram as mortes, entre os peixes e entre os índios. A Natureza chorou.
O Espírito Maior, diante de tanta tragédia, resolveu punir a todos pela descabida ambição. Fez com que, gradativamente, o rio fosse secando. Pela primeira vez na história, as pedras do salto do Rio Piracicaba ficaram expostas. Isso serviu para que todos refletissem sobre o absurdo das guerras, que, no fim, nunca têm vencedores, apenas perdedores. Representando o Espírito maior, surgiram das pedras doze cascudos, peixes pretos, para simbolizar o luto pela morte do rio. Assim que foram vistos, as traíras de cada um dos exércitos desculparam-se com os cascudos. Embora os líderes não tivessem essa humildade, a paz começou a se reinstalar, mesmo com os dois grupos rivais se portando, agora, como adversários e não mais inimigos. Cada um deles passou a viver definitivamente a própria vida. Até hoje, o Dourado acusa o Curimba pelo início da guerra. Nem é preciso falar que o Curimba diz o contrário.
O curumim interrompeu o pai:
-Mas, pai, e a espuma?
- Ah, sim! Você sabe que tem uma época em que os peixes, para se reproduzirem, nadam contra a correnteza até as cabeceiras e quedas d’água do rio. Esse período é chamado de “piracema”, em que a quantidade de água é máxima no rio. No salto, forma-se uma espécie de véu de espuma branca, símbolo de harmonia. Os peixes param bem ali, no salto, e não é por caso que o nome Piracicaba – lugar onde o peixe para - foi preservado. Isso tudo aconteceu devido a uma recompensa do Espírito Maior e da Natureza pela retomada da paz, embora parcialmente, porque ainda existe separação entre os peixes e entre os homens, pois muitos amam os dourados, enquanto outros optam pelos prateados”.
Em tempo: Talvez “Noiva da Colina” seja mais apropriado para referir-se a Piracicaba devido ao véu da noiva, pois na época da piracema, entre outubro e março, o véu reaparece nas fortes correntezas, infelizmente com menos intensidade e volume de água a cada ano, porque a guerra continua, agora entre “tubarões”, peixes alienígenas, estranhos ao nosso rio.
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