sábado, 10 de agosto de 2013

CRÔNICA DO MAURINHO ADORNO E O " AMIGO " DE INFÂNCIA, O FAMOSO LEMBRA-SE DE MIM, NUM 171... SÓ LENDO MESMO...


Cantinho O IMPACTO 10.08.2013
Tarcísio mata os pais

e tenta aplicar o maior 171
Maurinho Adorno
Naquela noite, por volta das 19 horas, eu estava vendo um jornal em canal aberto, quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, o camarada se identificou como Tarcísio. Estava pronto a desligar quando ele falou:
– Nós somos grandes amigos, estudamos juntos no primário e jogávamos bola no campinho em frente à sua casa. Sou filho da Cristina e do Mário, que trabalhava com seu pai.
Com um exercício rápido de memória, eu me lembrei dele: era, com certeza, a figura que se chama de perna de pau e só reclamava o jogo inteiro; passou pela minha mente um dia em que eu havia levado uma goiaba de lanche e ele me pediu com tanta insistência que acabei ficando sem a fruta – e a minha merenda. Com atenção o escutei:
– Estou indo para Poços de Caldas e programei essa parada para te dar um abraço e relembrarmos os velhos tempos.
Surpreso com o telefonema, mas por cordialidade, continuei o papo: 
– Vou te passar meu endereço e você vem tomar um cafezinho em casa. 
Em tom até certo ponto afável, ele falou:
– Sabe, estou de ônibus, e parei na rodoviária. Vamos fazer assim: você me pega e vamos tomar um aperitivo, brindar nosso reencontro, depois de todos esses anos.
Coloquei os sapatos e parti para o terminal. No caminho, fiquei envolto em pensamentos: como estaria meu amigo de infância? Gordo ou magro? Já teria cabelos brancos? O que teria feito da vida nessas décadas?
Parei o carro em local onde todas as pessoas que desembarcassem poderiam me ver. Segundos após se aproxima um rapaz magro, quase esquálido, e me pergunta, com a cabeça praticamente dentro da janela:
– Maurinho? Eu sou o Tarcísio.
Não tive tempo de responder e ele já estava sentado no banco do carona.
Em pouco tempo estávamos em um restaurante e eu com minha dúvida: qual o motivo dessa súbita visita?
Na chegada do garçom, cardápio em mãos, ele foi logo pedindo:
– Para mim, um Johnny Walker rótulo preto, duplo, por favor. E mande também uma porção de camarões.
Percebi que meu amigo de infância tinha gosto refinado para bebida. Pedi uma Brahma. Ele começou a falar:
– Nossa família saiu de Mogi e fomos morar em São Paulo. Fiz até a 8ª. série e trabalhei em 12 empresas diferentes. Tive cinco empresas minhas. Casei três vezes e tenho cinco filhos. Meus pais morreram. 
Eu realmente não sabia o que falar. Mas, educadamente dei corda:
– Em nossos dias, o que você faz?
Tarcísio pediu o terceiro whisky duplo, comeu mais camarões, e respondeu:
– Faço um ou outro biscate (pequeno trabalho) e vivo bem.
O instinto de curiosidade me aflorou:
– E suas empresas foram bem? Ganhou dinheiro com elas?
Com tranquilidade, sem esboçar qualquer trejeito no rosto, ele disse:
– Todas elas eram empresas de importação. Eu trazia mercadorias do Paraguai e vendia para os comerciantes da Rua 25 de Março e da Feira da Madrugada. Sabe como é: o dólar subiu e eu quebrei. 
Não resisti a fazer uma pergunta óbvia:
– Mas, você não repassava a oscilação do dólar?
Ele respondeu rápido: Mas, você sabe como é..., a Polícia Federal não entendeu meu trabalho.
Não precisava dizer mais nada. Sabia com quem estava sentado à mesa. Ele foi ao cerne do encontro:
– Sabe, Maurinho, minha mãe está hospitalizada com câncer, meu pai gasta mais de R$ 1.000,00 com remédios todo mês. (Eles não haviam morrido? ou era efeito da bebida?). Estou há seis meses sem pagar aluguel e com a geladeira vazia. Estou precisando muito da ajuda de um grande amigo meu, assim como você. Eu...
Conversa interrompida. Meu telefone toca. Do outro lado da linha, minha esposa Maria Eugênia pergunta:
– Está feliz por reencontrar seu amigo de infância?
Respondi de bate pronto, e em voz alta:
– Muito feliz, reencontrei meu “amigo da onça”, o Tarcísio, o maior 171 da terra.
Mauro de Campos Adorno Filho é jornalista,
ex-diretor dos jornais “O Impacto” e “Gazeta Guaçuana”.

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