sábado, 1 de junho de 2013

MAURINHO ADORNO E SUA CRÔNICA: CHUVA NO CASAMENTO DA ALESSANDRA. MAS, E DAÍ?

Nosso Cantinho O IMPACTO 01.06.2013
Chuva no casamento da
Alessandra. Mas, e daí?
Maurinho Adorno
O sábado amanhecera chuvoso justamente no dia do casamento da linda e elegante Alessandra Ribeiro. Ela havia feito os preparativos com antecedência para que a festa fosse marcante para o Emerson, seu noivo, aos seus familiares e aos 300 convidados. E agora, aquele tempo nublado de fim de outono, já mais próximo do inverno. Com a chuva fina tilintando no telhado e escorrendo pelo vidro da janela de seu quarto, ela elevou suas preces, pedindo para que não chovesse após as 18 horas, momento da celebração religiosa de sua união. Ligou o computador e se decepcionou com a previsão do tempo para sua cidade: pancadas de chuva à tarde e à noite. 
Na sala de jantar de sua casa, um café da manhã digno de uma rainha às vésperas do casamento: oito tipos de frutas, café, leite, presunto, ovos mexidos, iogurte, sucos de três sabores – todos de frutas naturais – queijo Minas, diversos tipos de biscoitos e pão de queijo, para não fugir à tradição de sua família, originária das Minas Gerais. À sua espera, Emerson, seus pais, Agnes e Roberto Ribeiro, o RR, os seus padrinhos de batismo, e é claro, o padre Toninho. Cumprimentos e elogios à sua beleza foram proferidos em profusão. E ela ainda não estava maquiada. Na sala ao lado, a esperavam, a cabeleireira e maquiadora Ivonete e a manicure Isa Guedes.
– Não tive sorte, bem no dia de meu casamento essa chuvinha chata, disse aos presentes.
Padre Toninho, com um sorriso nada convincente, tentou dar um colorido à condição climática. Aproximou-se e disse a ela:
– Essa chuvinha é o sinal de Deus. Ele está espargindo bênçãos em você.
Uma das características marcantes da Alessandra era ser honesta para consigo mesma. Falava o que pensava e sentia. Sua amizade com seu pároco permitiu que dissesse:
– Não venha com essa de que a chuva é uma bênção. Eu me contentaria só com a água benta, padre. Ela vai estragar parte de meu casamento.
Roberto, seu pai, tentou contornar a situação:
– Nós montamos diversas tendas na fazenda, minha filha. Não será uma chuvinha que irá tirar o brilho de sua festa.
Café tomado, sem se falar do tempo. Alessandra saiu e foi para seu quarto para a sessão de massagem, maquiagem e manicure. Provou o vestido de noiva pela quarta vez, assim que a estilista Renata chegou apressada. Tudo pronto. No almoço tradicional com os padrinhos, seu irmão Renato, um gozador de 18 anos, ergueu uma taça de champanhe. Todos esperavam o brinde. Ao invés de fazer uma saudação, ele cantou:
– Chove chuva, chove sem parar...
Nem mesmo se o padre Toninho cantasse “eu vou fazer uma prece, para Deus Nosso Senhor, para chuva parar...”, iria evitar que os pingos engrossassem a cada minuto e o céu se tornasse mais negro, dando a antever um verdadeiro dilúvio no final da tarde. 
Nos três quilômetros finais para chegar à fazenda, a Mercedes S-400 branca que levava Alessandra assumiu a cor marrom pelo barro da estrada de terra. Ela estava furiosa. Um guarda-sol de grandes proporções foi providenciado para cobri-la até a tenda onde seria realizada a cerimônia religiosa, mas o aparato não conseguiu evitar a chuva de vento que atingiu Alessandra, borrando toda a sua maquiagem. Socorro imediato da Ivonete, com seus retoques milagrosos e uma celebração ao som da chuva que sobrepujava os violinos. 
Na festa, o som da banda “Musical Premier” foi ofuscado pelo barulho da chuva forte que caía nas lonas que serviam de teto às tendas. Ninguém conseguia conversar. Entediadas, as crianças foram para o campinho de futebol situado à frente das tendas. 
Em dado momento, ainda com o vestido branco de noiva, Alessandra levantou-se. As atenções estavam voltadas a ela. Com certeza, iria cumprimentar os convidados. Com a cabeça erguida e esboçando sorriso, atravessou entre as mesas e segundos após estava com as crianças, chafurdando no barro. Literalmente.

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