sábado, 26 de maio de 2012

NOSSO CANTINHO - A LIBERDADE E O PRESENTE DE NATALINO - bem adornado pela arte do Maurinho Adorno - leitura obrigatória de todos sapientes que gostam de uma boa história - JORNAL O IMPACTO - MOGI MIRIM...


  • Nosso Cantinho O IMPACTO – 26.05.2012
    A liberdade e o presente de Natalino
    Maurinho Adorno
    Naquele dia 25 de dezembro, Sílvio José Ramos tinha duas comemorações para desfrutar em família: em primeiro plano o Natal, data consagrada ao nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, e em segundo lugar, o 6º. aniversário de seu filho Natalino José, um menino aplicado, prestes a iniciar seu primeiro ano primário no Grupo Escolar do bairro. Natalino era filho único de seu casamento com a Margarida, e em todos seus aniversários a família fazia reuniões com toda a família, especialmente com avós, tios e primos do pimpolho. Um almoço simples, caseiro, mas regado de muito papo. Na pauta, lembranças do passado e, principalmente, a necessidade de manter firme a fé e a prática dos ensinamentos bíblicos – eles eram católicos fervorosos – além de abordarem temas importantes como a criação dos filhos, e a situação financeira de cada um dos familiares. Presentes eram trocados, na forma de amigo secreto.
    Sílvio resolveu inovar em seu presente a Natalino. Ao invés de carrinhos, resolveu presenteá-lo com um passarinho, para que ele cultivasse amor às aves e desfrutasse do canto melodioso de um canário. Mas, precisava antes caçar o passarinho. Sílvio recorreu ao seu amigo Otávio Mendes e ambos foram até a Fazenda Piteiras, com gaiola e alçapão, uma semana antes do Natal. Dentro da gaiola, para servir de chamariz, um canário da terra cantador que o Otávio criava há 2 anos. Apetrechos montados em uma árvore, três horas de espera, e eis que um lindo canário da terra mateiro cai na armadilha, depois de se desgarrar de seu bando, atraído pelo canto do pássaro de seu amigo. O amarelo de suas penas era reluzente; a coloração preta ao final de suas asas dava o contrataste à cabeça avermelhada. Não era comum, era uma ave sem igual em sua beleza. Entendedor do ramo, Otávio disse a Sílvio “em minha vida nunca vi um canário tão lindo”. Era o presente ideal para Natalino.
    A ave ficou guardada na casa de Otávio para não quebrar a surpresa. Durante a semana toda, logo após o trabalho, Sílvio se dedicou à tarefa de fazer compras: foi à loja do Pedro Suzigan, no Mercado Municipal, e comprou uma bela gaiola arredondada, com um verniz reluzente, dotada de recipientes para água e alimentos, além de um espiral de arame como suporte para ovo cozido. Adquiriu também painço, alpiste e quirera de milho. Um quilo de cada, quantidade que, raciocinou, daria para 6 meses de trato. Pensou em alojar o novo membro da família em uma área coberta no quintal, contígua à casa, mas temeu que a ave fosse atacada pelos gatos da vizinhança. Acertou com a Margarida que a ave ficaria na copa da casa, onde Natalino fazia suas tarefas escolares. Ele teria ao seu lado o amigo de canto forte e melodioso. Agora era tramar a surpresa e aguardar a chegada do dia 25 de dezembro.
    Como em anos anteriores, Natalino colocou seu par de sapatos sob a cama, à espera do presente de aniversário e de Papai Noel. Às 4 horas da manhã, Sílvio foi até a casa de seu amigo Otávio buscar o canário da terra e às 5 horas o colocou na cabeceira lado da cama dom filho. Uma hora após, Natalino acordou com o canto do passarinho. Desceu de sua cama e ficou maravilhado. “É meu?”, perguntou ao pai satisfeito. Diante da afirmativa paterna foi até a cozinha chamar a mãe para ver seu presente. Exultante, resolveu dar nome ao canarinho. “Mãe, ele se chamará Garrincha”, um nome que saiu da sua cabeça provavelmente por ouvir muito seu pai falar do grande craque das pernas tortas que havia entortado os adversários com seus dribles estonteantes na Copa de 1970. Incontinenti saiu às ruas e em poucos momentos mais de uma dezena de crianças se acotovelavam na copa de sua casa para admirar a ave. E Garricha cantava.
    Hora do almoço. Toda a família Ramos à mesa, Natalino sentado à frente do pai inicia o diálogo: “pai, o Garrincha é como a gente, não é?”, perguntou, emendando “ele não tem fome, sede, frio, sente dores, fica triste e alegre?”. O pai concordou, sem entender onde o filho queria chegar. Natalino continuou: “ele também não tem pais e irmãos, uma família como a nossa?”. “Sim, meu filho”, disse Sílvio. Na mesa todos voltaram a atenção ao diálogo de pai e filho. E ficaram atônitos com a frase que o menino disparou: “pai, por que o Garricha é prisioneiro? Ele cometeu algum crime? Um dia você me disse que todos nós temos que ter liberdade?”. Todos pasmos e calados. Natalino pegou a gaiola e disse “vamos pai”. O almoço estava interrompido. Não era necessário nenhum tipo de comentário. Ambos entraram no Fusca do patriarca e 15 minutos após estavam na Fazenda Piteiras. Natalino abriu a porta da gaiola e Garrincha voou.

    Mauro de Campos Adorno Filho é jornalista,
    e ex-diretor dos jornais O Impacto e Gazeta Guaçuana.
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